Faltando apenas dois dias para o início oficial da primavera no Hemisfério Sul, o El Niño continua ganhando força no Oceano Pacífico Equatorial. A atualização mais recente dos órgãos de monitoramento climático trouxe novos números sobre a intensidade esperada para o fenômeno e revelou em qual período ele poderá alcançar seu ponto mais forte em 2026.

A primavera começa no Brasil em 22 de setembro, às 21h05, segundo o Observatório Nacional. A nova estação chega justamente em um momento de rápida intensificação do El Niño, que já apresenta sinais claros de forte aquecimento das águas do Pacífico Equatorial.

Faltando 2 dias para a primavera, nova previsão revela quando o "Super El Niño" deve atingir o pico em 2026
Mapa mostra forte aquecimento do Pacífico enquanto El Niño se intensifica e deve ganhar força até o fim de 2026 -Direitos autorais: Reprodução/ NOAA

De acordo com a atualização de setembro do Climate Prediction Center (CPC), ligado à NOAA, o fenômeno deverá continuar se fortalecendo até o fim do ano. A agência aponta mais de 90% de probabilidade de ocorrência de um El Niño classificado como muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte, período correspondente à primavera e ao verão no Hemisfério Sul.

Os números mais recentes tornam o cenário ainda mais relevante. Para o trimestre de outubro a dezembro de 2026, o CPC calcula 75% de chance de ocorrer um evento histórico, com intensidade capaz de superar os demais episódios registrados na série utilizada pelo órgão desde 1950.

Embora a expressão “Super El Niño” seja utilizada informalmente para descrever episódios excepcionalmente intensos, ela não corresponde a uma categoria oficial adotada pela NOAA. Tecnicamente, o órgão fala em um evento “muito forte” e, no cenário mais recente, na possibilidade de um episódio histórico.

Quando o El Niño deve atingir o pico em 2026?

As projeções mais recentes concentram a maior atenção no período entre outubro e dezembro de 2026. É nesse trimestre que o El Niño poderá atingir sua intensidade máxima, caso a evolução observada no oceano e na atmosfera continue seguindo o comportamento indicado pelos modelos climáticos.

Na atualização publicada em 10 de setembro, o CPC elevou para 75% a probabilidade de um evento histórico nesse período. Para que isso ocorra segundo o critério adotado na previsão, o valor trimestral do índice RONI deverá alcançar pelo menos +2,5 °C.

O próprio monitoramento do Pacífico já mostra uma aceleração expressiva. Em agosto, as anomalias da temperatura da superfície do mar ultrapassaram +3 °C no Pacífico Equatorial Leste, enquanto outras regiões utilizadas como referência para acompanhar o El Niño também apresentaram valores elevados.

Os índices divulgados pela NOAA para agosto mostram:

Os dados indicam que o aquecimento não está restrito a uma única parte do oceano. Ao mesmo tempo, alterações nos ventos e na distribuição das chuvas sobre o Pacífico mostram que a atmosfera também está respondendo ao fenômeno, um dos elementos importantes para caracterizar seu fortalecimento.

Faltando 2 dias para a primavera, nova previsão revela quando o "Super El Niño" deve atingir o pico em 2026
Pacífico aquece enquanto El Niño se intensifica e pode ficar muito forte em 2026/2027 –  Direitos autorais: Reprodução/ NOAA

El Niño passou de possibilidade a evento em rápida intensificação

O cenário observado agora é bastante diferente daquele apresentado no começo de 2026. Em janeiro, La Niña ainda estava ativa, e a NOAA calculava 75% de probabilidade de uma transição para condições neutras do fenômeno ENOS entre janeiro e março.

Naquele momento, o cenário considerado mais provável era de condições neutras durante os meses seguintes. Embora as chances de formação de um futuro El Niño já começassem a aparecer nos horizontes mais longos dos modelos, ainda existia grande incerteza sobre sua ocorrência e, principalmente, sobre sua intensidade.

Em fevereiro, La Niña continuava presente. A projeção apontava 60% de probabilidade de uma transição para neutralidade entre fevereiro e abril, com condições neutras ainda favorecidas durante parte do ano. Para os meses posteriores, entretanto, os modelos já começavam a mostrar aumento das chances de El Niño.

A situação ganhou uma nova direção em março. A NOAA manteve o aviso relacionado à La Niña, mas acrescentou uma Vigilância de El Niño. Naquela atualização, a probabilidade de formação do fenômeno entre junho e agosto havia subido para 62%.

Em abril, a mudança ficou ainda mais evidente: La Niña chegou ao fim e o Pacífico passou oficialmente para condições neutras. O CPC passou a considerar 61% de chance de surgimento do El Niño entre maio e julho, embora ainda existisse uma ampla faixa de possíveis intensidades.

No mês seguinte, a confiança aumentou novamente. Em maio, a NOAA calculava 82% de probabilidade de formação do El Niño entre maio e julho e 96% de chance de permanência do fenômeno entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Mesmo assim, naquele momento ainda havia incerteza considerável sobre a força máxima que seria alcançada.

A confirmação veio em 11 de junho, quando a NOAA declarou oficialmente o estabelecimento das condições de El Niño. A partir daí, o aquecimento continuou avançando e os modelos passaram a sinalizar com maior confiança um fortalecimento significativo durante o segundo semestre.

Em julho, o índice semanal Niño 3.4 já havia alcançado +1,2 °C. Naquela atualização, a NOAA estimava 97% de chance de o El Niño permanecer até o início da primavera de 2027 no Hemisfério Norte e apontava 81% de probabilidade de um evento muito forte entre outubro e dezembro.

Em agosto, a média do Niño 3.4 referente a julho chegou a +1,4 °C. O cenário de fortalecimento ficou ainda mais consistente e a NOAA passou a indicar probabilidade superior a 90% de um El Niño muito forte durante o fim de 2026 e o início de 2027.

Já em setembro, o Niño 3.4 avançou para +1,8 °C, enquanto o Niño 3 atingiu +2,5 °C e o Niño 1+2 chegou a +3,4 °C. A atualização também elevou de 69% para 75% a chance de um evento histórico entre outubro e dezembro.

Como o cenário do El Niño mudou ao longo de 2026?

As projeções foram sendo atualizadas à medida que novas informações do oceano e da atmosfera passaram a confirmar o fortalecimento do fenômeno. Veja a evolução:

Período Cenário Principal indicação
Janeiro La Niña 75% de chance de transição para condições neutras
Março Vigilância de El Niño 62% de chance de formação entre junho e agosto
Maio El Niño mais provável 82% de chance de formação entre maio e julho
11 de junho El Niño confirmado NOAA declara oficialmente o estabelecimento do fenômeno
Setembro Forte intensificação 75% de chance de evento histórico entre outubro e dezembro

Por que a previsão do El Niño mudou durante 2026?

A evolução das projeções ao longo do ano não significa que os modelos anteriores estavam necessariamente em contradição. Previsões climáticas são probabilísticas e passam por atualizações à medida que novas observações do oceano e da atmosfera são incorporadas.

No começo de 2026, ainda havia dúvidas sobre a velocidade com que as águas do Pacífico Equatorial poderiam aquecer e sobre a capacidade desse aquecimento de produzir uma resposta consistente na atmosfera.

Com o avanço dos meses, as temperaturas tanto na superfície quanto abaixo dela aumentaram. Mudanças nos ventos, na convecção e na distribuição das chuvas sobre o Pacífico também passaram a apresentar um padrão cada vez mais característico de El Niño.

Essa combinação entre oceano e atmosfera aumentou a confiança dos modelos. Por isso, uma previsão que no primeiro semestre indicava apenas a possibilidade de formação do fenômeno passou, meses depois, a apontar alta probabilidade de um evento muito forte.

A NOAA reforça, entretanto, que mesmo um El Niño excepcionalmente intenso não garante impactos extremos em todos os lugares. Uma intensidade maior tende a aumentar a possibilidade de determinados padrões climáticos associados ao fenômeno, mas não determina exatamente o que acontecerá em cada cidade ou região.

O que um El Niño muito forte pode provocar no Brasil?

A intensificação do fenômeno também aumenta a atenção sobre os possíveis efeitos no Brasil. O Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027, divulgado no início de setembro por órgãos federais, apresenta projeções de chuva e temperatura para os próximos meses.

Para o trimestre de setembro a novembro, há maior probabilidade de chuvas acima da média histórica em áreas da Região Sul, com destaque para o Rio Grande do Sul. Parte de São Paulo e de Mato Grosso do Sul também aparece no cenário de volumes acima da média.

No sentido oposto, as regiões Norte e Nordeste apresentam maior tendência de chuva abaixo da média. Partes de Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo também aparecem entre as áreas com maior possibilidade de precipitações inferiores ao padrão histórico.

Principais pontos de atenção para o Brasil

Com o fortalecimento do El Niño, alguns cenários merecem acompanhamento especial nos próximos meses:

As temperaturas apresentam maior probabilidade de permanecer acima da média em praticamente todo o território nacional. Isso não impede, porém, a ocorrência de quedas pontuais provocadas pela passagem de massas de ar frio, principalmente durante setembro e no período de transição entre inverno e primavera.

Nas áreas central e norte do país, a combinação entre calor elevado e chuva abaixo da média pode aumentar o déficit hídrico e criar condições mais favoráveis à propagação de incêndios florestais, especialmente se houver atraso no estabelecimento regular da estação chuvosa.

Na Amazônia Legal e no Pantanal, setembro, outubro e novembro normalmente representam uma fase de transição entre a estação seca e o retorno das chuvas. Um El Niño intenso e prolongado pode atrasar esse processo em algumas áreas, mantendo a vegetação e o solo mais suscetíveis ao fogo.

Já no Sul, onde a tendência climática favorece volumes superiores à média, aumenta a necessidade de acompanhamento de episódios de chuva forte, elevação de rios e possíveis inundações. Isso não significa, entretanto, que esses eventos ocorrerão necessariamente ou de maneira uniforme em toda a região.

El Niño muito forte significa mais eventos extremos?

Faltando 2 dias para a primavera, nova previsão revela quando o "Super El Niño" deve atingir o pico em 2026
El Niño pode ficar muito forte em 2026/2027 -Direitos autorais: Reprodução / O Segredo

Um dos cuidados mais importantes ao interpretar as projeções está justamente em separar tendência climática de previsão do tempo. O fato de o El Niño ter grande probabilidade de alcançar intensidade muito forte não significa que seja possível prever, com meses de antecedência, quais cidades enfrentarão temporais, enchentes ou ondas de calor específicas.

As previsões sazonais indicam tendências médias para períodos mais longos. Elas conseguem apontar regiões onde existe maior probabilidade de chuva acima ou abaixo do normal ou temperaturas mais elevadas, mas não determinam antecipadamente o dia, o município ou o volume de chuva de uma tempestade.

Também não é correto atribuir automaticamente ao El Niño todos os eventos extremos que ocorram durante sua atuação. O fenômeno modifica a circulação atmosférica e pode favorecer determinados padrões, mas os episódios de tempo severo dependem da interação com outros sistemas.

Entre os sistemas que também podem influenciar episódios de tempo severo estão:

Esses mecanismos continuam desempenhando papel importante na formação de tempestades, mudanças bruscas de temperatura e episódios de chuva intensa.

Por isso, mesmo diante da possibilidade de um El Niño muito forte entre a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027, os órgãos oficiais reforçam a necessidade de acompanhar previsões de curto prazo, avisos meteorológicos e alertas da Defesa Civil.

A próxima atualização mensal do diagnóstico da NOAA está prevista para 8 de outubro de 2026. Até lá, novos dados do oceano e da atmosfera ajudarão a mostrar se o El Niño continuará seguindo a trajetória que atualmente coloca o trimestre de outubro a dezembro como o período de maior atenção.