Um estudo revolucionário publicado na revista Nature Geoscience trouxe à tona uma descoberta intrigante sobre o núcleo interno da Terra, sugerindo que ele pode estar mudando de forma.

A pesquisa realizada pela Universidade do Sul da Califórnia (USC) indica que essa transformação pode interferir na duração dos dias e afetar o clima e outros fenômenos na superfície terrestre.

Até então, acreditava-se que o núcleo interno da Terra, localizado a cerca de 5.100 km abaixo da superfície, fosse uma esfera completamente sólida, formada por metais densos como ferro e níquel.

Essa ideia se consolidou a partir de estudos anteriores que se concentravam na rotação do núcleo, deixando de lado a análise de sua composição física.

Descoberta acidental: núcleo interno pode não ser totalmente sólido

O achado ocorreu de maneira inesperada. O objetivo inicial da equipe de cientistas da USC era mapear a desaceleração do núcleo interno da Terra.

Durante a análise de décadas de dados sísmicos, uma sequência peculiar de ondas sísmicas se destacou, levando os pesquisadores a uma conclusão surpreendente: o núcleo interno não é totalmente sólido, como se pensava.

Mas enquanto eu analisava múltiplas décadas de sismogramas, um grupo de dados de ondas sísmicas curiosamente se destacou do resto. Posteriormente, percebi que estava olhando para provas de que o núcleo interno não é sólido afirmou o autor principal do estudo, John Vidale, professor de ciências da Terra da USC

A pesquisa se baseou na análise de 121 terremotos que ocorreram repetidamente em 42 locais das Ilhas Sandwich do Sul, na Antártida, entre 1991 e 2024.

As ondas sísmicas originadas desses eventos foram registradas em estações de monitoramento em Fairbanks, no estado americano do Alasca, e em Yellowknife, nos Territórios do Noroeste do Canadá.

Ondas sísmicas revelam deformação no núcleo interno

Os dados coletados revelaram uma mudança significativa nas formas das ondas e nos sinais sísmicos captados entre 2004 e 2008.

Essa variação ocorreu porque as ondas sísmicas atravessaram brevemente o núcleo interno da Terra, indicando que ele estava passando por um processo de deformação.

A análise das ondas mostrou que a superfície do núcleo interno sofre uma “deformação viscosa”, alterando a fronteira mais superficial que o separa do núcleo externo.

Segundo os cientistas, essa deformação é consequência da interação entre as duas camadas do núcleo, especialmente devido à turbulência do núcleo externo líquido.

O núcleo externo derretido é amplamente conhecido como turbulento, mas sua turbulência ainda não tinha sido observada perturbando o vizinho, o núcleo interno, em uma escala de tempo humana. O que estamos observando neste estudo pela primeira vez é, provavelmente, o núcleo externo “despedaçando” o núcleo interno explicou Vidale

Desaceleração e consequências na superfície terrestre

Um estudo anterior da mesma equipe, publicado na revista Nature em junho de 2024, já sugeria que o núcleo interno da Terra estava desacelerando.

Naquela ocasião, os cientistas identificaram que o núcleo alterna entre períodos de rotação mais rápida e outros mais lentos em relação à superfície da Terra. Contudo, parte da comunidade científica contestou a hipótese, alegando que possíveis variações no formato do núcleo poderiam explicar os dados coletados.

Neste novo estudo, os cientistas da USC concluíram que ambos os fenômenos — deformação e desaceleração — estão ocorrendo simultaneamente. A desaceleração é capaz de alterar a duração do dia em alguns minutos e, possivelmente, interferir nos campos térmicos e eletromagnéticos da Terra.

Isso pode, em última análise, impactar fenômenos meteorológicos e até a estabilidade climática em longo prazo.

Desafios para a ciência e próximos passos

Apesar das descobertas significativas, os cientistas ainda enfrentam o desafio de compreender completamente os mecanismos por trás dessas mudanças no núcleo interno.

O comportamento complexo e imprevisível da camada mais profunda da Terra exige um monitoramento contínuo e o cruzamento de dados de diferentes eventos sísmicos ao redor do mundo.

Mais dados são geralmente o melhor caminho para entender melhor as novas alegações. O núcleo interno, se continuar a girar na direção em que tem rotacionado pelos últimos 15 anos, logo retornará para onde estava por volta do ano 2000, quando pode ter feito algumas coisas interessantes. Os próximos anos serão esclarecedores destacou Vidale

Estudos adicionais serão necessários para confirmar as hipóteses levantadas e explorar como as mudanças no núcleo interno podem influenciar fenômenos geológicos e ambientais na superfície da Terra.

A compreensão detalhada desses processos é fundamental para prever como o planeta responderá às alterações em sua estrutura interna.

Impactos potenciais no clima e na vida na Terra

Embora o estudo ainda esteja em fase de aprofundamento, as possíveis implicações da deformação do núcleo interno preocupam especialistas. Alterações na rotação da Terra, mesmo que sutis, podem ter efeitos de longo prazo sobre os padrões climáticos e a duração dos dias.

Cientistas também alertam para a necessidade de investigar mais a fundo como essas mudanças podem afetar os campos magnéticos, que desempenham um papel crucial na proteção contra radiação solar e na manutenção do equilíbrio atmosférico.

A equipe da USC permanece comprometida com o avanço das pesquisas, enquanto a comunidade científica aguarda ansiosa por novas descobertas que possam esclarecer como o comportamento do núcleo interno influencia a dinâmica do planeta.